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 SONHOS ESQUECIDOS - Em construção

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Liar
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Mensagens : 172
Data de inscrição : 14/02/2012

MensagemAssunto: SONHOS ESQUECIDOS - Em construção   Seg Jul 16, 2012 3:30 am


Sinopse

Somos apenas sofredores tentando encontrar uma luz que faça todos os nossos erros valerem a pena. E pensar que eu era apenas mais um, até encontrá-la.


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Liar
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MensagemAssunto: Re: SONHOS ESQUECIDOS - Em construção   Qua Jul 25, 2012 7:54 am


1

Por alguma razão ainda não esclarecida, sinto-me diferente de qualquer ser vivo já criado por Deus. Quando observo meu reflexo no espelho, não consigo enxergar a mim mesmo como um ser humano normal enxergaria sua própria imagem. Tenho a plena certeza de que a maioria até se sentiria incomodado com os defeitos que vê em seu rosto – narizes amassados, grandes ou pontiagudos demais; olhos pequenos e juntos, olheiras profundas e escuras, lábios pequenos demais para um rosto gigantesco e papudo? –, ou os defeitos do corpo – falta ou excesso de curvas, pele maltratada, os ossos curtos para alguém que gostaria de ser esticado, seios pequenos? –, ou, até mesmo, os defeitos da alma. Os que apenas cada um sabe quais tem.

Não vejo nada mais que o corpo de um humano comum: um garoto de estatura mediana, nem magricela, nem gordo, alguns músculos levemente acentuados, normais para sua idade, pele em um tom claro, e cheia de sardas que seriam quase invisíveis se eu olhasse de longe. Esse alguém, eu, tem um queixo um pouco triangular, de traços severos; alguém que certamente não nasceu para sorrir; os lábios são cheios e pálidos, o nariz é pequeno e pontiagudo, as maçãs do rosto naturalmente coradas, e, ah, ali estão mais sardas, que agora se perdem, estão desaparecendo espalhadamente; os cabelos são castanhos escuros, lisos e com fios apontando para todos os lados. Contudo, quando cheguei aos olhos, a figura refletida ali sorriu para mim – ou eu estava sorrindo para ela –, e um olhar azul gélido pareceu brilhar, como um fogo azul que crepita ardente.

Passando os olhos pelo espelho, pequenas imagens no topo de minha cabeça prenderam minha atenção. Eram adesivos, estrelas de cinco pontas, planetas e naves espaciais, todas com um pouco mais de dois centímetros, talvez três. Sua quantidade me deixou alienado por alguns instantes, e senti uma estranha vontade de contar quantas estrelas daquelas estavam espalhadas por meu quarto. Vinte e cinco? Trinta? Não sei bem, eram tantas que eu provavelmente me perderia ao chegar na metade da contagem, mas sua quantidade dominava todo o teto daquele pequeno cômodo. Afastadas e próximas ao mesmo tempo, pareciam mudar de lugar cada vez que eu as observava. Pensando bem, eu não as vejo desde criança.

Lembro-me de ter sofrido um tipo de crise aos oito anos de idade. Após assistir um filme de terror que me fora diversas vezes aconselhado a não assistir, ganhei um pavor de escuro e, não importava que tipos de mimos minha mãe prometesse me dar se eu fosse um bom garoto e dormisse em meu quarto sozinho, chorei e supliquei para que ela não me deixasse. Era um drama só. Meu pai vivia resmungando coisas sobre homens não terem medo de escuro, e isso só me fazia chorar mais ainda.

A “solução” veio poucos dias depois, quando cheguei em casa no início da noite e corri para o meu quarto como de costume. Passara o dia todo fazendo meu primeiro estilingue e queria testá-lo, mas a surpresa que tive ali naquele ambiente escuro me fez esquecer até meu nome!

Adesivos grudados por todo o quarto, como se um pedaço de uma noite estrelada houvesse caído acidentalmente em cima de mim. Deixei a mochila vermelha e suja da escola escorregar pelo meu ombro enquanto deslizava para minha cama sem conseguir tirar os olhos da coisa mais surpreendente que já vira na vida. O que era aquilo? Quem havia colocado ali?

– Philip, você chegou! – Mamãe fez um barulho estrondoso ao passar pela porta. Nem precisava olhá-la para saber que estava sorrindo, deleitando-se com minha reação ao seu presente. – Seu pai e eu queríamos te fazer uma surpresa. Não precisa mais ter medo de escuro... – Do que ela estava falando, afinal?

Engoli a seco e suspirei com cuidado. A colcha de cama também era nova, azul escura, e parecia que eu estava flutuando pelo espaço, me misturando com ele, como um verdadeiro astronauta perdido, por isso eu tinha que respirar com calma. E, apesar de o meu oxigênio poder acabar a qualquer momento, eu não queria ser encontrado agora.

– Mãe, é... Incrível!

– Que bom, então preste atenção nisso – Deu ênfase a última palavra, risonha, e um segundo depois o quarto foi ficando cada vez mais escuro, enquanto as estrelas, planetas e naves espaciais adquiriam um brilho fluorescente. Era tudo tão mágico que eu não tinha nem palavras, mas se tivesse que descrever o que estava vendo ali, a palavra mais próxima para descrever aquele momento seria: perfeito.

Fui sugado ao presente quando meus olhos se encheram d’água e logo após comecei a soluçar. Lágrimas e mais lágrimas escorriam pelos meus olhos, como cachoeiras intermináveis de tristeza e saudades. Quando dei por mim, já estava jogado no chão do quarto, chorando cada vez mais alto.

– Philip! O que foi, filho? – Mamãe abriu a porta do jeito de sempre e se jogou ao meu lado. Os dedos enrugados me tocaram e uma expressão perturbada assumiu seu rosto.

– M-mãe – Balbuciei como uma criança dolorida e me aconcheguei em seu colo. – Mãããe... – As lágrimas simplesmente não cessavam, então me encolhi e chorei em seu peito, solucei e ensopei suas roupas, mas sabia que ela não se importava com isso, por isso me senti seguro o suficiente para continuar meu pranto de coração apertado, mesmo que aquilo ferisse um pouco o meu orgulho. Chorei pelas estrelas, chorei por ser como sou, chorei porque o mundo era uma droga, chorei até finalmente conseguir falar algo sem gaguejar. – O que é aquilo, mãe? – Esperei ela seguir meu olhar, de maneira serena.

– São adesivos, filho. Seu pai e eu colocamos ali. Você ficou tão encantado que perdeu o medo de dormir sozinho no escuro. Não lembra?

Mordi meu lábio inferior, a ponto de chorar novamente.

Por que ela não conseguia entender?

– Lembro. São apenas adesivos agora... – Enxuguei o rosto com a costa das mãos e bufei inconformado. – Antes eram estrelas, mãe, e eu era um astronauta perdido no meio delas. Mas, agora, são só malditos adesivos.

– Por que está irritado, Philip?

– Porque eu queria que fossem estrelas... Como eram antes. Eu queria vê-las de novo, brincar, conversar com elas, e deixar de sentir medo. Mas elas não brilham mais. Não são estrelas, nem planetas, nem naves. São... Adesivos, mãe. Adesivos. E eu não sou mais um astronauta. Agora tenho medo de novo.

Ela me encarou por alguns instantes, confusa, tentando ler minha expressão chorosa. Eu havia herdado alguns traços de minha mãe, como as sardas e os olhos azuis, mas ela, de fato, era muito mais bonita. Tinha cabelos ruivos que, apesar da idade, ainda tinha sua cor original, quase em perfeito estado, se não fosse por alguns fios brancos sobressaindo-se em seu vermelho forte. Gostava de olhá-la de perto, assim, pois seus olhos eram como os meus. Fogo azul, só que não crepitava. Era lava. Lenta, devastadora e misteriosa.

– Oh! – Os lábios pintados de vermelho formaram uma grande bola, então soube que não haveriam palavras para me confortar. Desfiz nosso abraço delicadamente e fiquei de pé, esperando ela fazer o mesmo.

– Eu vou ficar bem – Menti.

– Filho, eu... Sinto muito por isso. – Ela levantou e puxou-me para si para depositar um beijo em cada maçã de meu rosto. – Vou fazer a janta, certo? – Assenti enquanto ela girava calcanhares e dançava até a porta, saindo do quarto.

Quando o silêncio perturbador se instalou, me joguei na cama de maneira violenta e encarei o teto novamente, sentia que continuaria chorando até me conformar com a ideia.

Como eu queria de ver as estrelas, mais uma vez...



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